
Certa vez um aluno me perguntou qual das respostas estava certa. Eu de pronto retruquei: qual é a pergunta? A conclusão que se tira disso é que sem se entender a pergunta não se chega na resposta. Eu já disse há muito tempo atrás que o grande problema da humanidade é a comunicação. Gente que não sabe falar e gente que não sabe ouvir. Gente que não sabe perguntar e gente que não sabe responder. A linguagem é muito escorregadia e é necessário se ter cuidado. Essa frase poderia ser de Wittgenstein caso não fosse tão óbvia e simples. Embora não seja, não deixa de expressar uma verdade. Sem entender a linguagem e o conjunto de sentidos, nada pode ser compreendido plenamente. Não que devamos compreender as coisas plenamente, mas... Bom, comecemos então com uma consideração sobre o sentido das palavras.
O termo “Metafísica” surge de uma forma muito banal. Wittgenstein dizia que a filosofia só se torna obscura e pomposa porque os filósofos é que usam uma linguagem complexa. Veja como soa bonito: “discussões acerca das questões metafísicas e ontológicas do mundo”. Antes de metafísica ter um sentido “metafísico”, essa palavra não passava de junção de duas outras: meta + física. Andronico de Rodes, ao organizar as obras de Aristóteles após sua morte, deparou-se com um conjunto de escritos sem nome. Então em sua organização, o posicionou depois do tratado de física. Aí é que entra o detalhe. Em grego, a palavra “meta” significa duas coisas: “depois” e “além”. A questão é: “depois” e “além” significam a mesma coisa? Não! A palavra depois dá uma conotação de posição no espaço – tipo, a segunda-feira vêm depois do domingo – numa seqüência. Já a palavra “além” nos dá um sentido de superação, de ir mais longe – tipo, esse livro foi além das minhas expectativas. Veja como de uma língua para outra as palavras adquirem significações diferentes. Com o passar do tempo, “Metafísica” passou a significar a área do conhecimento filosófico que vai além do mundo físico, do mundo material – das coisas que podemos tocar.

Estava eu certo dia no ponto de ônibus em frente a um açougue. Atento como sempre, fiquei reparando nas placas do estabelecimento e parei numa placa anunciando o preço do “contra-filé”. Aí eu pensei:
“Se sou contra tudo – então isso significa que não posso comer contra-filé – pois logo sou contra filés?”
Isso é um paradoxo. Ou dependendo do ponto de vista pode ser uma idiotice também. Veja. Analisando de forma rápida você pode considerar essa questão válida. Mas se parar para pensar e usar a filosofia da linguagem irá perceber que há um erro aí – se for ao oftalmologista irá perceber que há erro em tudo, inclusive em seu corpo. Assim como a palavra “meta”, a palavra “contra” possui diversos significados. Essa “contra” de “contra-filé” quer dizer o seguinte: em bovinos, na parte traseira, encontra-se o filé em seus diversos tipos (mignon, capa de e de costela) – todos são filés. Do outro lado – ou seja na direção oposta, encontra-se o contra-filé (nesse caso o contra significa em direção oposta). Esse contra não é de “contestação”, de “negação”, sim de direção oposta. Essa questão está errada. Agora se você não gosta de filés (em seus vários tipos acima citados) por seus motivos e alguém lhe perguntar: o que você têm contra o filé? – e você expuser seus motivos, aí sim você será contra o filé e isso em nada tem haver com o contra-filé que caso não tivesse sido inventado por um filósofo poderia poupar-nos dessa confusão caso se chamasse simplesmente “parte oposta ao filé”. Bem mais simples né?

Outro paradoxo.
Se você quer acordar às 7h da manhã e para isso você programa o seu despertador para tocar às 7h da manhã e você acorda sozinho às 7h da manhã – sua programação deu certo ou errado?
Então! Eu acho que sua programação deu certo sim, embora você não tenha precisado do despertador. (Agradeça a sua ansiedade que foi quem te acordou). “Sua” programação deu certo porque você atingiu sua finalidade – Aristóteles iria dizer que você atingiu seu telos – que era acordar as 7h da manhã. A programação que você fez no despertador pode não ter dado certo, mas a sua programação (finalidade ou telos) deu. Afinal o que você queria – acordar às 7h da manhã ou se acordado às 7h da manhã pelo despertador? Claro que acordar às 7h da manhã independentemente de como. Mas se o sujeito aí tivesse sido acordado pelo despertador? Então sua programação teria dado certo e a programação que você fez no despertador também. Bom, acho que deu pra entender né?
Olha como a linguagem pode ser realmente escorregadia – e isso independe se quem disse isso foi Wittgenstein ou um bêbado qualquer.
Um homem diz no metrô a seguinte frase: ei, você passou sua língua na minha boca! Uma velha se espanta e exclama: que pouca vergonha! O home retruca de volta para a velha: mas a senhora não entendeu e não deixou eu explicar direito. Eu ia dizer que ele passou a língua do tênis dele na boca da minha calça e sujou, só isso. A velha disse: e porque você não disse isso logo? O homem: é porque eu estou economizando palavras!

Mas às vezes é até bom economizar nas palavras – porque ao invés de você dizer que “algo não está dentro dos padrões aceitáveis por sua natureza distinta” você não diz logo que algo está uma “merda” – você economizaria tempo e palavras e seria muito mais facilmente compreendido. Tá vendo, Wittgenstein tinha razão: o problema do mundo está na comunicação e na linguagem. Mas quem disse que foi ele quem disse isso? Há – vá a merda!

Por mais que pareça estranho para muitas pessoas, eu considero o ciúme não apenas normal, o considero essencial para um relacionamento. O ciúme é uma espécie de diagnóstico da relação. Ele por incrível que pareça indica como as coisas estão ou são. Porém o ciúme só faz sentido – e portanto torna-se uma coisa útil, na medida de nossa imperfeição. Bom, para isso eu vou usar as idéias de Platão para melhor explicar. Quando alguém entra em um relacionamento, a pessoa deseja ser importante para a outra. Num mundo ideal – ou o mundo das idéias e das formas perfeitas de Platão – não precisaríamos do ciúme para nos sentirmos importantes e valorizados (e consequentemente para se importar e valorizar). Porém estamos num mundo imperfeito (das sombras), onde tudo o que vemos são cópias malfeitas de tais modelos ideais. Então como nunca atingiremos a perfeição – para nos sentirmos valorizados, usamos o ciúme. A nossa necessidade torna o ciúme uma coisa positiva. Usando uma escala de 1 a 10, podemos analogamente entender o porquê o ciúme é importante. De 1 a 4. Nessa margem, o ciúme é pouco. Quando se está nesse nível à impressão que se dá ao outro é a de indiferença. Veja. Você está conversando com outra pessoa de forma mais carinhosa e a outra pessoa não se incomoda nem um pouco com isso? Parece estranho. Dá a entender que ela não teme perder. Tanto faz como tanto fez. Se não teme perder é porque não dá muita importância. Pois como diz a canção “Sozinho” – “quando agente gosta é claro que agente cuida”. Por outro lado, quando a margem vai de 7 a 10 – chega-se ao outro extremo. Pessoas com esse nível de ciúme transformam-se em “possessivas”. Como a palavra sugere, a pessoa transforma a outra em sua posse. Isso é o pior que pode acontecer. Esse estado leva a loucura. O possessivo enxerga tudo no superlativo. Se toca seu celular é alguém que você vai combinar de sair. Se te mandam um sms é uma mensagem romântica. Se te chamam no MSN é porque você tem um caso com alguém. O possessivo sente ciúme até dos membros da família. Odeia que seu amor saia na rua e tenha contato com outras pessoas. Enquanto um extremo é indiferente e não liga – o outro liga excessivamente. Enquanto um não teme perder, o outro não aceita a possibilidade da perda. E quando não se aceita perder, faz-se qualquer coisa. Daí é que vêm os crimes passionais. Nos dois casos não há sentimento genuíno. Se o amor ideal – aquele na medida certa, com a devida reciprocidade, atenção, carinho, respeito e compartilhamento – não está ao nosso alcance (pois está no mundo das ideias), o que fazemos então? O ideal é chegar a o nível 5 e 6 da escala do ciúme – mas como não conseguimos, o melhor a fazer é fugir dos extremos. Na escala de 1 a 4 – tente chegar a 4. Na escala de 7 a 10 – tente ser 7. Esses níveis são o melhor que podemos atingir com nossas imperfeições. Apenas no mundo sugerido por Platão as pessoas se amam e se valorizam sem precisar do ciúme, ou caso precisem dele, chegam aos níveis 5 e 6. No nosso mundo, precisamos dele para nos manter. Nós precisamos sentir as coisas – nesse sentido somos mais materialistas como Aristóteles e empíricos como David Hume. Precisamos de coisas concretas, tangíveis, para confiar no sentimento. Agora como confiar no sentimento de uma pessoa que não liga pra você? Como manter um sentimento por uma pessoa que te sufoca? No fundo ambos são muito parecidos. O indiferente é auto-sustentável, pois você não acrescenta nada demais na vida dele e por isso ele dá de ombros: se continuar bem e se acabar bem também. O possessivo é um egoísta. Não quer perder a qualquer custo não porque ele te ama, mas sim porque ele ama excessivamente a ele. Ele ama a idéia de vocês juntos porque você faz bem a ele e isso que importa. Ele não liga para o fato de que ele pode não fazer bem pra você – mas você é segundo plano. Tá, mas se o indiferente é auto-sustentável porque ele está com você? Apenas pelas aparências. Não é de bom tom não ter um parceiro na sociedade pós-industrial e pós-moderna. Você é apenas um adorno, a cereja do bolo – mas uma cereja de plástico – que só serve de enfeite e não se come (sic). Mas se o possessivo no fundo não te ama – pois ama a si mesmo, porque ele não se torna um Narciso? Justamente porque lhe falta a auto-sustentabilidade. O possessivo precisa de alguém para fazê-lo feliz porque é incapaz de sê-lo sozinho. Os seres humanos são muito capazes de assimilar conhecimento, não sabedoria. E como não aprendem a serem um pouco melhores do que são, acabam mudando de qualquer jeito. De tanto ouvirem reclamações e passarem por relações fracassadas, decidem mudar. O indiferente que antes não ligava vira possessivo. E o possessivo que antes ligava demais, para de ligar. O grande filósofo e imperador Marco Aurélio disse: “os homens foram feitos uns para os outros, suporta-os ou instrui-os”. Como os dois tipos são incapazes de entender – na maioria dos casos – e quando acham que entendem e mudam, apenas trocam de papeis, só resta à opção de suportar. Suportar é uma atitude difícil. Por quê? Suportar o fato de que a pessoa que você gosta não liga pra você é horrível. E suportar – e nesse caso aceitar – a dominação total e irrestrita do outro sobre você é tão horrível quanto. E a solução? Se é que tem uma, pode ser a seguinte. Detectar no começo do relacionamento indícios desse tipo de personalidade. E se a pessoa não demonstrar? Bom, há indícios diretos e há indícios indiretos. E é nos indiretos que está o segredo. Pequenas ações podem se tornar grandes – e são nas pedras pequenas que tropeçamos. Fique atento aos pequenos detalhes. E é importante que seja no começo do relacionamento porque quanto mais enraizado o hábito mas difícil de revertê-lo e quando mais a relação se aprofunda, mais difícil sair dela. E se eu não achar a minha pessoa ideal como eu fico? Encontre uma a seu alcance – deixando de idealizar a pessoa perfeita – e de preferência escolha (e se dedique) a alguém que tenha defeitos toleráveis – e nunca tente mudar ninguém – pois: “mudar pelos outros é mentir pra si mesmo”.

“O sensação da posse que você sente em relação ao outro é uma ilusão. Pois na verdade é você que está possuído pelo desejo de possuir”.
Marlon Marques.

Obs. O título faz referência a uma frase Leibniz.

Como todos sabem, as vacas são sagradas na Índia. Se aqui chamar uma mulher de “vaca” é uma ofensa moral gravíssima, na Índia é um elogio espetacular. Certo, não estamos lá, e por isso mesmo é importante salientar – “vaca indiana”, ou seja, não se trata de uma vaca qualquer. O casamento transforma a maioria das mulheres em vacas indianas. Como assim? É isso que vou explicar a seguir (é claro que ninguém vai concordar, mas tudo bem). Quando você conhece a mulher que será no futuro sua esposa, ela tem o jeito de uma “gatinha”. Você se apaixona por ela e começam a namorar. Lá pelas tantas do namoro, ela vira uma “leoa” – quente (olha as mordidas) e ciumenta, defendendo o que é seu com unhas de dentes. Vocês casam! A partir daí ela começa a se transformar na sua “vaca indiana”. E por mais que ela já não seja mais aquela gatinha do começo – cobiçada (até pelos seus melhores amigos – acredite!), nunca se esqueçam, ela é sagrada (e sempre sua). E é sagrada porque é sua. É aquela velha história – o olho do dono é que engorda o gado. Aos olhos dos outros ela já não é mesmo a mesma – e até aos seus olhos, mas fazer o quê né. Pra começar, é ela que você come (sic). Você observa por aí muitos filés mignons e picanhas, mas não é para sua realidade. Portanto, contente-se com seu “coxão mole” (e põe mole nisso). Sim, ela ficou mole. E se servir de consolo, até a gostosona da mulher do seu vizinho também vai ficar. A realidade é que depois dos filhos, a maioria das mulheres engorda. Ela continua gatinha de alguma forma – do pescoço pra cima. Na cama ainda é um pouco leoa. Mas com corpo de vaca. A gordura ou gostosura como queira – a deixou preguiçosa, lenta e espaçosa. E daí? Ainda sim é ela que lhe agüenta – além de fazer sua comida, lavar sua roupa e te dar carinho. Ela é a mãe dos seus filhos. É essa vaca que fornece o leite para seus rebentos crescerem fortes e saudáveis. Aliás, como a sua pequena vaca (filha) se tornará uma promissora vaca leiteira sem a vaca mãe? Olha só como ela é importante na sua e na vida deles. Ela também vive mastigando. Sabe vaca no pasto, que fica com aquele capim o dia todo mastigando? Sua mulher é igualzinha. Come o dia todo e tudo o que vê pela frente (dá um prejuízo). Ansiedade? Stress? Cansaço? Talvez! Mas o fato é que quanto mais come, mas cresce (em tamanho claro). Você só nota isso quando ou ela te derruba da cama à noite, ou quando a coxa dela atrapalha você a trocar de marcha no carro. O homem esteta do jeito que é, às vezes até pensa em deixá-la e porque não a deixa? Por que é cômodo ter uma vaca em casa. Carne, leite para os filhos, colo fofinho quando está cansado, serviços doméstico e um rostinho ainda lindo – tudo isso pesa na hora de ir embora de casa. Além disso ela emite muito metano também (pra não falar que ela peida – porque isso é feio de dizer sobre uma mulher), mas não importa tanto – a não ser no quarto fechado. Você pode criticá-la pelo desleixo, por não se arrumar mais, por não emagrecer, etc. – mas é impossível não valorizá-la também. É o conjunto de comodidades que faz o homem continuar com ela. É como um emprego que você odeia mas que paga bem, lhe dá vale transporte, alimentação, refeição e participação nos lucros. Você odeia o que faz, mas será que encontrará um serviço melhor de fazer mas com as mesma vantagens? É o que os economistas chamam de vantagens comparativas. E digo mais, não venha você querer falar mal dela não, só quem pode falar mal sou eu. Afinal, ela é minha vaca, minha preciosa e sagrada vaca indiana – a quem eu jurei "amor eterno" e me separar só com abatimento.

“A cada um agrada sua esposa, a mim me agrada a minha”.
Cícero.

“Quando chegar lá, diga à minha esposa que dois anos de prisão doem menos que quatro de casamento”.
Heinrich Harrer em “Sete Anos no Tibet” (1997).


Quantos eu te amo você já ouviu hoje? E quantos você já ouviu em toda sua vida? Muitos presumo eu. Dessa forma me faz pensar que você foi muito amado. Engano seu! É possível que ninguém nunca tenha te amado. É possível também que nunca conheça o amor. É fato, o amor é banalizado em nossa sociedade e nesse mundo. As relações de hoje tão superficiais, se atrevem a colocar o amor como expressão integrante desse escopo. Pessoas se conhecem numa noite e na própria (noite) já trocam “eu te amo”. O amor passou de um artigo de luxo na Idade Média para um artigo abundante no século XX e XXI. Nelson Rodrigues disse: “o dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro” – e nunca isso foi tão verdadeiro. O amor hoje é medido, pesquisado, comprado, vendido, trocado, negociado. Eduardo Giannetti escreveu o elogiado “Auto-engano” – e usarei essa expressão para começar a esmiuçar minha idéia de amor. A maioria das pessoas não ama, se enganam apenas. E não se trata de enganar o outro, mas sim de duplo auto-engano. Ou seja, é uma via de mão dupla. Você diz que ama e o outro finge que acredita e depois diz que te ama e você diz que acredita. Na verdade, ambos estão se auto-enganando – acreditando que estão amando e sendo amados. Assim vivem uma cômoda ilusão – “conheça a verdade e a verdade vos libertará”, disse Jesus e retomaremos depois. O que chama de amor é na verdade outras coisas menos o próprio amor. Não se chega ao amor diretamente – o amor é uma construção que passa por muitos estágios. O que chamam de amor é uma camuflagem – que esconde outros sentimentos, evidentemente inferiores ao amor.

1. Paixão. Na maioria das vezes o que chamam de amor nada mais é do que “paixão”. A paixão é um sentimento levado a um alto grau de intensidade. Justamente por isso é fugaz, dura pouco. Começa muito forte – dá-se a impressão de que é amor, e verdadeiro, mas depois passa como uma brisa. Quando se está apaixonado, o raciocínio fica em segundo plano – faz-se coisas estranhas e quando passa, coloca-se a culpa no amor. Diderot vê nelas a fonte de todos os males e de todos os prazeres do homem. O Marquês de Maracá diz que “mudamos de paixões, mas não vivemos sem elas”. A paixão é importante para nos desenvolvermos, porém não podemos viver apaixonados para sempre acreditando ser isso o amor. A paixão geralmente leva a dois caminhos:
2. Tara. A tara é a paixão em nível muito alto. Quando a paixão atinge seu auge, chega-se na tara. Aí se não se toma cuidado, a pessoa começa a enlouquecer. Nesse estágio a pessoa faz coisas mais do que estranhas – patológicas. Perseguições, telefonemas em qualquer horário, mensagens, loucuras de amor, etc. Geralmente a outra pessoa não gosta (claro). No começo tenta conversar. Mas depois começa a se sentir ameaçada, com medo, pois as coisas começam a evoluir até virar outra coisa pior.
3. Obsessão. A obsessão leva a angústia do ser, tornando o outro como o objeto único de seu pensamento. Nesse estágio a pessoa vive pela outra. Às vezes adquire status de devoção, com altares com fotos e objetos da pessoa. As perseguições se tornam freqüentes. O indivíduo não se contenta mais só em olhar (como na tara), ele passa a querer de qualquer forma – intervindo fisicamente no outro. A obsessão gera violência e até morte. A pessoa não aceita o outro em uma nova relação – aliás, não aceita o outro sem ele. Paul Carvel disse: “paixão é uma obsessão positiva. Obsessão é uma paixão negativa”. A obsessão é um beco quase sem saída. É um estado patológico, de doença – erroneamente chamado de “doença de amor”. Isso não é amor, é justamente obsessão. O obcecado no fundo é um egoísta e não ama o outro – ou ama a si mesmo ou é apenas um doente auto-enganado.

4. Desejo. A paixão se não se torna obsessão e nem tara, assume a forma do “desejo”. O desejo é uma vontade enorme de possuir algo. O desejo geralmente é contido, quando se exacerba virá a obsessão por outras vias. O desejo é algo intimista, voltado a si mesmo. O chamado amor platônico – relaciona-se com o desejo de ter (não tendo). Seria melhor então chamá-lo de desejo platônico – já que o amor está no mundo das idéias e o que se alcança é a paixão através das sombras da caverna. Bernard Shaw diz que não alcançar o desejo é uma tragédia humana – uma tragédia própria, se sofre sozinho. Desejar é querer demais algo, e querer de mais algo não significa amar demais esse algo. Se deseja por muitos motivos, um dos mais comuns é o orgulho.

5. Orgulho. O orgulho está relacionado com o desejo de possuir, de possuir por orgulho. Orgulho próprio. Orgulho é sentimento de dignidade pessoal e amor próprio demasiado. Isso tem muito de narcisismo. Você quer a outra pessoa não por amor, mas por status. Para não ficar sozinho ou para mostrar-se para os outros como alguém bem sucedido – inclusive no amor. Amor? Não é amor, é apenas vaidade. O orgulho e a vaidade são irmãos. E também não é bem amor próprio, é mais auto-veneração. Enquanto Calígula era luxurioso, Nero era vaidoso. Queria estar em evidência sempre. Às vezes o outro é importante para reforçar a sua imagem perante si mesmo e para os outros. No orgulho dificilmente o amor aparece. Embora não apareça também nos demais – mas é no orgulho que não aparece mesmo. La Rochefoucauld disse: “se não tivéssemos orgulho, não nos queixaríamos do orgulho dos outros”. Todos temos orgulho, mas quando se passa da medida, caí no narcisismo algo patológico – e alguns consideram tão horrível quanto a obsessão – se o narcisismo não for uma forma de obsessão.
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por Marlon Marques.

Essa é uma questão bem antiga. Quem nunca a ouviu quando era criança? E quem nunca se perguntou ou perguntou aos pais ou aos professores sobre isso? Mas afinal – quem nasceu mesmo primeiro? Comecemos então criando um paradoxo:
Se todos os ovos nascem de galinhas e todas as galinhas nascem de ovos – quem nasceu primeiro? Casos como esse podem ser interpretados sob a luz da “Lei de causas e conseqüências” e sob a luz da “Lei de causas primeiras”. Em filosofia diz-se que quase todas as coisas têem um começo – ou seja, uma causa primeira. Essa causa primeira é o ponto de partida para algo – que pode prosseguir evoluindo Ad Infinitum ou chegar a um ponto de estagnação. Portanto, segundo essa concepção, as coisas não existem desde sempre – mas sim desde um ponto (um começo). Sem considerar a lei de causas primeiras, cairemos num labirinto conceitual apenas com a lei de causas e conseqüências, pois a galinha é conseqüência do ovo, mas ovo também é conseqüência da galinha – assim como cada um é causa do outro (veja o paradoxo). Em termos argumentativos – há os argumentos coerentes e os argumentos incoerentes – e na impossibilidade de se chegar à verdade primordial das coisas, opta-se pela explicação mais coerente – uma espécie de navalha de Ockham.

Segundo a teoria da evolução de Charles Darwin – toda vida existente evoluiu de um único ponto – ou seja, uma causa primeira. A isso em biologia evolutiva se chama de “procarionte”. A evolução nos diz que os organismos mais simples foram evoluindo para organismos mais complexos, migrando de unicelulares para pluricelulares. Nessa longa estrada evolutiva – bactérias evoluíram para pequenos seres aquáticos, que se tornaram peixes, que saíram da água e se tornaram anfíbios, depois répteis até chegarem às aves. A galinha é uma ave. Segundo biólogos como Richard Dawkins – a missão dos seres vivos é a perpetuação da espécie através da transmissão de seus genes. A natureza então criou o sistema reprodutivo nos animais – nas galinhas também – para que dessa forma a espécie se perpetue. O sistema de peixes, anfíbios, répteis e aves é o sistema ovíparo, ou seja, o nascimento de novos indivíduos da espécie se dá através de ovos (proteção). Usando esse raciocínio – as primeiras galinhas evoluíram de répteis – processo de adaptação (ganhando e perdendo características físicas até chegarem a um determinado estágio) – então, duas dessas galinhas (nesse caso um galo também), se cruzaram num primeiro momento – causa primeira – e no processo de formação de um novo individuo da espécie, a natureza o protegeu no interior da galinha sob a forma de um ovo – como o casulo das lagartas.

Por mais que não se possa ter certeza absoluta sobre isso – a melhor resposta se obtém usando a lógica. O que é mais coerente – que uma bactéria tenha evoluído até chegar a um galinha e essa tenha botado um ovo ou que uma bactéria tenha evoluído até chegar em um ovo e esse tenha “botado” uma galinha?
Por coerência, concluo que a galinha nasceu primeiro do que ovo, e partir então dessa causa primeira, ovo e galinha entraram Ad Infinitum na lei de causas e conseqüências – sendo sempre um a conseqüência e a causa do outro, não desde sempre, mas sim a partir de uma causa primeira.

Há duas coisas imutáveis sobre o tempo: é impossível prever suas traquinagens e inútil, sem dúvida, qualquer esforço gasto na tentativa de para-lo, pois ele não para, o que “para” algum dia é você. Leu isso numa crônica no jornal do povo, deu risada como se gozasse de uma vida infindável, tomou seu último gole de conhaque e saiu do botequim às pressas, cruzando a Avenida Aurora, sem notar a cândida lua cheia que brilhava bem acima dos prédios. Creio, caro leitor, que essa lastimável distração deve-se ao uso exagerado da rotina; uma substância necessária para a organização social, porém, quando em excesso, é perigosíssima. Esse era o mal que assolava Algemiro; beirava os trinta e quatro anos, era solteiro por destino e morava com a mãe, Dona Glória. Solícita como requer o cargo, era ela quem acordava o filho às oito horas da manhã de todos os dias: “Acorda Algemiro!” gritava. Tão logo ouvia seu grito que Algemiro pulava da cama desnorteado sempre com a convicção de que está atrasado para o trabalho. Seu ofício desde moço era no ramo das finanças, o que ele não fazia por amor, mas por sustento. A labuta no escritório era de segunda a sexta, lá se confinava o dia inteiro no árduo trabalho contábil, alimentava a economia, mas a economia não o alimentava – basicamente. O único tempo ócio que lhe restava para recompor o espírito eram os finais de semana, os quais fazia questão de perder com trivialidades da vida moderna: sofá, televisão e botequim. Mas voltemos leitor, ao inicio da história; àquela noite de lua cheia. Chegando em casa, Algemiro tomou banho e desmaiou na cama de modo que ali morresse exausto por mais um dia tedioso, como de costume. Porém de manhã ele acordou sentindo-se pior do que quando deitara. Um cansaço inexplicável! Seu corpo pesava como se houvesse comido um boi, sentia dores de cãibra e resmungava: “Ó céus! Pareço um velho moribundo!” O relógio já avançava às oito horas e a essa altura era possível ouvir Dona Glória gritando: “Acorda, acorda Algemiro!” Preocupado com o mal estar que poderia confiná-lo na cama o dia inteiro, ele virou-se com muita dificuldade para pegar uma aspirina no criado-mudo, mas ao visualizar o espelho, repugnou-se com a imagem monstruosa do rosto envelhecido. Uns míseros cinquenta anos mais velho. Ficou gélido, pálido e sem reação à vista da metamorfose. Parecia sonho. A única saída era agarrar-se na esperança de que tudo não passasse de um sonho do qual ele iria despertar a qualquer momento. Mas não adiantava, a imagem não ia embora e as dores continuavam. Seguiu-se assim por um breve instante, oscilando a razão entre o sonho e a vigília até que, com muita dificuldade, os braços vacilantes se ergueram permitindo que os dedos tocassem a pele do rosto e então seu tato revelou aquilo que a visão custava acreditar: “Deus! Estou velho!”
(E Dona Glória gritava: “Já é tarde Algemiro!”)
Perde-se o sentido.
Sente-se em um lugar qualquer...
por Marlon Marques.
Sempre ouvi dizer dos psicólogos que nós homens temos um lado feminino, e as mulheres têm um lado masculino não manifestado. Ou melhor dizendo, não manifestado de forma explícita – até porque quando isso acontece já sabemos o resultado. Já ouvi dizer também que os homens têm medo da sua região anal por medo de gostar – afinal, onde fica a masculinidade e a reputação a zelar? Exageros a parte, agora partamos para as generalizações. Pedantemente falando – sim, os homens são menos complicados do que as mulheres. Já disse e reafirmo – Deus criou o homem e a mulher no mesmo momento – ele quis ficar com a mulher lá em cima no paraíso, porém não agüentou e a mandou para nós. Porque será que a terra deixou de ser um paraíso heim? Bom, justamente pelo fato de as mulheres serem muito complicadas, a melhor solução para os relacionamentos seria que ou o lado feminino dos homens se aflorasse ou o lado masculino das mulheres se aflorasse. E exercitando a minha porção machista do dia, é claro que eu prefiro a primeira opção. Sabe a regra de ouro ou só pra complicar – o imperativo categórico supremo? – ou seja: “faça para os outros aquilo que você gostaria para si”, pois é, o contrário também dá na mesma: “não faça para os outros aquilo que você não gostaria que fizessem a você” – se as mulheres entendessem esse princípio, as relações seriam muito diferentes. Porque aí elas agiriam de outra forma em relação a nós homens – pensariam duas vezes antes de tomarem certas atitudes. Às vezes só aprendemos as coisas quando passamos por elas, não estou dizendo que é a melhor forma, mas é com certeza uma das mais eficazes. Então como eu prefiro que as mulheres usem o menos possível o seu lado masculino, seria legal que nós homens as fizessem provar do seu próprio veneno.

A primeira coisa a fazer é chorar vendo futebol, mas não só em final ou nas derrotas do seu time do coração, mas em qualquer partida. Aí quando ela perguntar o que foi, vingue-se dela. – Não foi nada, que saco! Ser ignorante é parte da estratégia. – Nossa chorando por causa de futebol! – Pois é né, você entende agora o que é chorar por nada! É isso mesmo, mulher chora sem motivo e isso nos irrita.
A segunda coisa a fazer é ter uma mente fértil. Quando o amigo dela ligar pra dar os parabéns no aniversário, invente uma teoria conspiratória. – Quem é o canalha, diz, diz!!!!! A quanto tempo vocês andam se encontrando? – Amor, é só uma ligação de um amigo! – Sei, sei, amigo. Pode me mostrar os presentes que ele te deu. – Do que você ta falando? Vocês entendem agora meninas como nos sentimos quando vocês enxergam coisas absurdas onde não têm? Veja como é horrível calunias.
A terceira coisa a fazer é entender as coisas com outro sentido. – Amor arruma a manga da camisa! – O quê, minha camisa é feia! Vocês acabam de se encontrar e ela te dá um oi e um selinho. – O que está acontecendo, você não me ama mais, não se preocupa comigo, têm outro? – Bem, vou com a minha mãe ao supermercado ta? – OK, pode dizer que vai no shopping com suas amigas. Olha como é bom distorcer as coisas.
A quarta coisa a fazer é nunca assumir sua parte nos problemas. A quinta coisa a fazer é estourar o cartão de crédito dela. A sexta coisa a fazer é pedir pra ela arrumar um cara melhor – e depois conclua dizendo: “mas você vai sentir minha falta” – elas sempre dizem isso, não é mesmo?

Conclusão, o mundo seria um péssimo lugar se só houvessem homens. O mundo seria um lugar agradável se só houvessem mulheres. E seria um lugar perfeito se as mulheres fossem menos complicadas e entendessem nosso lado. Afinal, quem não quer uma mulher compreensiva? E uma mulher companheira – inclusive pra jogar vídeo game e ver futebol? E uma mulher de atitude? Olha que paradoxo, tudo o que queremos nas mulheres é o que as mulheres querem em nós – então qual é a saída? A saída é se por no lugar do outro às vezes e tentar perceber o quanto tal atitude magoa o seu parceiro. Difícil né? Mas e se você nunca tentar? Porém amigo, mulher perfeita nunca vai existir – nem mesmo bebendo muito, porque aí você verá duas, e se uma já é difícil de entender, imagina duas. Mas brincadeiras a parte, perfeição é uma meta inatingível e tola. Mas não seria nada mal se elas melhorassem um pouquinho, só um pouquinho pelo menos – até porque se elas ficarem perfeitas, Deus como pode tudo, irá tirá-las daqui e cá pra nós né, um mundo só com homens seria péssimo.
“Homens e mulheres são exatamente iguais, inclusive que muitos dos dois têm pernas cabeludas – mas a grande diferença é que quando se trata de consumo, as mulheres agem antes de pensar, ao contrário dos homens”.
Marlon Marques.